‘É nóis’! Brasil é vice-campeão mundial de QI! – E o mito da cordialidade brasileira ser a razão para o QI ser tão importante no Brasil

By: Author Raul MarinhoPosted on
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O portal Exame.com publicou hoje um estudo da consultoria Robert Half (uma das maiores da área de recrutamento do mundo) que quantificou a importância do QI mundo afora, e o resultado é que o Brasil aparece em segundo lugar. Embora esteja ciente de que não se trata de um estudo específico para empregos na aviação, eu achei interessante compartilhar essa matéria para poder comentar uma afirmação que ela contém (ao meu ver, equivocada, mas que faz parte de nosso “senso comum”):

Tão criticadas quanto frequentes no Brasil, as contratações por indicação são – segundo a gerente da Robert Half, Daniela Ribeiro – fruto de uma cultura nacional mais calorosa em que ajudar os outros é visto como um valor.

Se isto fosse verdadeiro, então por que a Austrália está logo à nossa frente, e logo depois de nós estão os Emirados Árabes, e em seguida a França? Será que todos esses países compartilham uma “cultura nacional mais calorosa em que ajudar os outros é visto como um valor”? Claro que não!

Na verdade, não é que haja uma “cultura que favoreça o QI”, mas sim um ambiente de negócios em que o QI funciona mais ou funciona menos – o que, por sua vez, pode moldar a cultura: é exatamente o oposto! Em minha opinião, no caso dos empregos na aviação, dois fatores favorecem o predomínio do QI: 1)A dificuldade dos patrões em saber a verdadeira qualidade dos pilotos (então, eles precisam de uma indicação que lhes dê segurança); e 2)As relações de altruísmo recíproco que surgem em círculos relativamente restritos, em que quase todo mundo se conhece (então, se eu lhe indico hoje, amanhã é você quem me indica).

Eu explico isso em mais detalhes aqui e aqui.

4 comments

  1. Drausio
    4 anos ago

    Oh, Raul, foi mal.
    Em minha interpretação leiga e apressada de episódios sociais sempre acho que ações individuais que favorecem outrem podem ser melhor explicadas por algum outro tipo de comportamento que não o altruísmo recíproco. Acho que a competição ou a cooperação sob coerção são imensamente mais prováveis.
    Na aviação, por exemplo, quero ver altruísmo recíproco favorecer o sujeito pobre, sem posses, sem contatos pessoais e/ou políticos interessantes, sem alguma forma de ascensão sobre o grupo no qual está inserido. Mas se o sujeito for, digamos, recém checado PC/IFR e tiver o potencial para favorecer outros, seja porque tem dinheiro e pode levar os outros consigo para lugares interessantes, seja porque ele é bem relacionado e, uma vez bem empregado, poderá indicar outros para empregos que surgirem entre os seus contatos, seja porque ele exerce qualquer forma de liderança ou possui algum instrumento de poder sobre o grupo, aí o “altruísmo recíproco” pode funcionar muito bem, e o nosso herói terá grandes chances de receber ajudas “desinteressadas” de muita gente ao seu redor.
    Acho o altruísmo recíproco em humanos é usado para descrever muitos eventos em que, na verdade, as variáveis relevantes que determinam o comportamento “altruísta” estão simplesmente escamoteadas na situação.
    Anyway, essa pode ser uma questão teórica irrelevante para os fins da discussão em voga. Seja por altruísmo recíproco, seja por alguma outra forma de cooperação, ou mesmo de competição, o importante para conseguir bons empregos na aviação (e em quase todos os outros lugares) é mesmo o velho e bom QI.

    • Raul Marinho
      4 anos ago

      Bem…
      -O altruísmo recíproco é a maneira preferencial de cooperação entre humanos, e também está por trás de como nos organizarmos para competir em grupos.
      -Para “os pobres” o altruísmo recíproco é mais importante do que para “os ricos”, já que estes podem simplesmente comprar a cooperação de terceiros, enquanto aqueles precisam conquistá-la – e o mecanismo preferencial, adivinhe qual é?
      -Altruísmo recíproco não tem nada a ver com desinteresse, pelo contrário: o mecanismo é, por definição, voltado à… reciprocidade!
      -Estamos falando justamente do “velho e bom QI”! Porque alguém tem um bom QI, afinal? Há, é claro, o “filho do comandante”, que ganha seu QI de presente, mas na maioria dos casos é a própria pessoa que constrói o seu QI, e sempre por meio de mecanismos de altruísmo recíproco!
      -Não gosto de autopropaganda, mas gostaria de lhe recomendar um livro sobre altruísmo recíproco: http://www.saraiva.com.br/pratica-na-teoria-aplicacoes-da-teoria-dos-jogos-e-da-evolucao-aos-negocios-2-ed-2011-3541516.html

  2. Drausio
    4 anos ago

    Altruísmo recíproco é como a fusão nuclear, só acontece em condições de laboratório, ou em uma galácsia muito, muito distante.

    • Raul Marinho
      4 anos ago

      Como assim??? O mecanismo do altruísmo recíproco é, provavelmente, uma das mais marcantes características comportamentais humanas (embora não seja exclusiva da nossa espécie: outros primatas e os morcegos também a praticam).

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